Há muito tempo venho tentando escrever de uma maneira poética, engessada e chata. Os textos podem até serem bons, mas não são o que eu quero. Não me vale de nada tentar escrever como Saramago, Dostoiévski, Garcia Marquez ou Machado de Assis.
Não vou esconder. Tenho um emprego CLT, tenho um ótimo namorado, uma casa comum, mãe, irmão, escola. Tenho rotina. Com certeza. A primeira coisa que jogaria pro alto é meu emprego. Ele me dá dinheiro. Dinheiro é bom. Mas isso não é silogismo, ele não é bom. É pacato. E muito regrado pro meu instinto. Instinto que eu mesmo preservo pra me manter, por vezes, imperceptível. O que levaria minha literatura ser certinha segundo moldes de um grande escritor qualquer?
Sabe meu emprego dos sonhos? Todo mundo tem um. E com certeza o meu não é ser auxiliar administrativa. Quero escrever. Quero produzir. Quero ser a primeira defensora dos skinheads e punks, admiradora da cena independete punk-rock e regionalista, a entrar e sentar naquela fétida poltrona da ABL (Academia Brasileira de Letras). Quero viver nos bastidores do palco. Quero ser a causadora, a precursora. Quero me envolver com música, teatro, letras, cinema, tudo ao mesmo tempo. Quero quebrar essas barreiras de que pra ser escritora tem que ser fofinha, curtir mpb (ok, eu gosto também...) e achar o Rio de Janeiro lindo, como Gilberto Gil. Quero que meu blog faça sucesso. Quero ser aliada de Nenê Altro, perambular pelos bastidores do Hangar 110, Madame Satã. Quero quebrar parâmetros.
A segunda, e última coisa que largaria, é a casa. Quero viver com meu amor, receber os amigos, ter uma parede preta em algum canto da casa. Quero ficar até de madrugada vendo filme de terror com todas as luzes acesas, quero andar pelada, quero entrar e sair a hora que bem entender de lá. Plantas espalhadas pelos cômodos, fotografias de momentos bons em todas as paredes. Uma bagunça. Mas harmoniozamente organizada com minha alma. Quero liberar meu instinto selvagem, e por vezes sub-humano.
Quero fazer tatuagens, pintar o cabelo de azul, por piercings. Quero participar de saraus sem ter hora pra acabar, e fazer contatos, que um dia serão úteis. Ou não. Quero cortar o cabelo channel, me arrepender, chorar, e pintar de outra cor.
Quero inconstância. Quero volátilidade. Quero incerteza.
Mas uma incerteza segura. No fundo meu maior problema é o emprego, a escola, a casa... Meu maior problema sou eu. Que me deixei enganar por tanto tempo (ei, 18 anos é tempo tá?) nessa fachada correta que me privei.
É melhor eu acordar, antes que o pesadelo fique maior do que está.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
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